A CARTA DE JUDAS

UMA ADVERTÊNCIA AOS LÍDERES

O objetivo de Judas quanto ao conteúdo da carta, era escrever a respeito da salvação que é compartilhada por toda a igreja, mas, nesse momento, ele fica sabendo que a igreja estava sendo influenciada por falsos mestres. Diante disso, ele sente que “era necessário escrever-lhes inisistindo que batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos.”

O problema central apresentado por Judas em sua carta é o caso daqueles que não guardaram suas posições e se perderam, tornando-se alvo do juízo divino. Ele cita como exemplos: o povo de Israel no deserto, os anjos, Sodoma, Gomorra, Caim, Balaão e Coré. Estes exemplos nos mostram experiências coletivas e individuais. Menciona desde pessoas completamente ignorantes quanto a Deus, passando por aquelas que o conheciam muito bem e chegando a mencionar os anjos, que viram a Deus face a face. O que todos estes tiveram em comum foi o fato de se deixarem corromper, recebendo por isso o justo castigo.

É impressionante observarmos que o povo de Israel, por sua rebelião e incredulidade, está na lista de exemplos ao lado de Sodoma e Gomorra. Da mesma forma, Balaão, um profeta que se deixou seduzir pela ganância, é listado juntamente com Caim, um assassino. Estes exemplos devem nos servir de advertência, a nós que somos líderes na igreja do Senhor, pois nos mostram que, não importa qual seja a nossa posição na casa de Deus ou o nível de maturidade e experiência que tenhamos, não estamos imunes a queda. A carne e o diabo não respeitam essas “graduações” humanas “Aquele que pensa estar em pé, olhe não caia.” 1Co 10:12

O CONTEÚDO DA CARTA

“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos que foram chamados, amados por Deus Pai e guardados por Jesus Cristo: 2 Misericórdia, paz e amor lhes sejam multiplicados. 3 Amados, embora estivesse muito ansioso por lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos, senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos. 4 Pois certos homens, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se dissimuladamente no meio de vocês. Estes são ímpios, e transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor. 5 Embora vocês já tenham conhecimento de tudo isso, quero lembrar-lhes que o Senhor libertou um povo do Egito mas, posteriormente, destruiu os que não creram. 6 E aos anjos que não conservaram suas posições de autoridade mas abandonaram sua própria morada, ele os tem guardado em trevas, presos com correntes eternas para o juízo do grande Dia. 7 De modo semelhante a estes, Sodoma e Gomorra e as cidades em redor se entregaram à imoralidade e a relações sexuais antinaturais. Estando sob o castigo do fogo eterno, elas servem de exemplo. 8 Da mesma forma, estes sonhadores contaminam seus próprios corpos, rejeitam as autoridades e difamam os seres celestiais. 9 Contudo, nem mesmo o arcanjo Miguel, quando estava disputando com o diabo acerca do corpo de Moisés, ousou fazer acusação injuriosa contra ele, mas disse: "O Senhor o repreenda! " 10 Todavia, esses tais difamam tudo o que não entendem; e as coisas que entendem por instinto, como animais irracionais, nessas mesmas coisas se corrompem. 11 Ai deles! Pois seguiram o caminho de Caim, buscando o lucro, caíram no erro de Balaão e foram destruídos na rebelião de Corá.

12 Esses homens são rochas submersas nas festas de fraternidade que vocês fazem, comendo com vocês de maneira desonrosa. São pastores que só cuidam de si mesmos. São nuvens sem água, impelidas pelo vento; árvores de outono, sem frutos, duas vezes mortas, arrancadas pela raiz. 13 São ondas bravias do mar, espumando seus próprios atos vergonhosos; estrelas errantes, para as quais estão reservadas para sempre as mais densas trevas. 14 Enoque, o sétimo a partir de Adão, profetizou acerca deles: "Vejam, o Senhor vem com milhares de milhares de seus santos, 15 para julgar a todos e convencer a todos os ímpios a respeito de todos os atos de impiedade que eles cometeram impiamente e acerca de todas as palavras insolentes que os pecadores ímpios falaram contra ele". 16 Essas pessoas vivem se queixando e são descontentes com a sua sorte, seguem os seus próprios desejos impuros; são cheias de si e adulam os outros por interesse. 17 Todavia, amados, lembrem-se do que foi predito pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. 18 Eles diziam a vocês: "Nos últimos tempos haverá zombadores que seguirão os seus próprios desejos ímpios". 19 Estes são os que causam divisões entre vocês, os quais seguem a tendência da sua própria alma e não têm o Espírito. 20 Edifiquem-se, porém, amados, na santíssima fé que vocês têm, orando no Espírito Santo. 21 Mantenham-se no amor de Deus, enquanto esperam que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo os leve para a vida eterna. 22 Tenham compaixão daqueles que duvidam; 23 a outros, salvem-nos, arrebatando-os do fogo; a outros ainda, mostrem misericórdia com temor, odiando até a roupa contaminada pela carne.”

AS CARACTERÍSTICAS DOS DISSIMULADORES

1) “Esses homens são rochas submersas…” Por que Judas os chama de “rochas submersas”? Pois esses homens, assim como as rochas submersas, tem suas reais motivações escondidas para poder influenciar os cristãos mais fracos e débeis na fé a apoiarem suas idéias e seguirem suas práticas. Esses homens fingiam amar os irmãos e, portanto, eram semelhantes a pontiagudos rochedos submarinos que poderiam rasgar a carne de nadadores e matá-los, ou afundar navios. Paulo mencionam alguns irmãos que sofreram naufrágio no que diz respeito a sua fé. Tendo isso em mente, devemos ter cuidado, a fim de resistir a todos os que querem fazer desviar os discípulos mais inexperientes dos ensinos de Cristo (2Pe 2:14).

Estes não tem nenhum desejo sincero de servir aos irmãos, mas sim, desejam secretamente apenas fazê-los desviar, a fim de que sigam a eles mesmos. Por isso Judas exorta a igreja a batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Judas está dizendo que existem pessoas que são especialistas em fazer a igreja (o navio), afundar em sua vida espiritual. Eles estão escondidos, não dá para se ver a primeira vista, é preciso se ter certa dose de discernimento espiritual. Eles ficam sorrateiramente danificando a fé das pessoas. Eles são rochas, ou seja, eles afundam os outros, mas não saem do lugar. Em nossa viagem rumo ao lar celestial, vamos encontrá-los pelo caminho. Precisamos discerní-los e nos desviarmos deles.

2) São pastores que só cuidam de si mesmos.” Eles cuidam apenas de si mesmos, são pastores que se importam apenas consigo mesmos. Esses falsos mestres eram também semelhantes a pastores que tosquiavam e sacrificavam o rebanho para vestir e alimentar a si mesmos. Não tinham nenhum cuidado por suas ovelhas, não as alimentava corretamente. Tudo que eles queriam era explorar as ovelhinhas para seu próprio benefício!

Isso também serve de exemplo a todos nós que somos pastores e líderes na igreja de Deus. Que nunca haja em nós qualquer desejo impróprio e carnal de buscar reconhecimento, de usar a igreja para atingir interesses pessoais de glória, em detrimento de nossos amados irmãos que merecem tanto nossa atenção e cuidado. Sejamos bons exemplos como pastores e líderes. Como Timóteo, a quem Paulo se refere escrevendo aos Filipenses: “Não tenho ninguém como ele, que tenha interesse sincero pelo bem-estar de vocês, pois todos buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo.” Fl 2:20,21 Como são poucos, os que hoje estão na liderança da igreja e revelam esse sentimento! Como é triste olhar para a igreja nos dias de hoje e ver que ainda há homens preocupados somente em edificar e projetar seu próprio ministério deixando de lado o cuidado com a igreja do Senhor. É importante meditar na palavra que o Senhor deu aos pastores de Israel através de Ezequiel, onde ele os repreende por sua falta de cuidado com suas ovelhas: “Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: 2 Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não apascentarão os pastores as ovelhas? 3 Comeis a gordura, vestis-vos da lã e degolais o cevado; mas não apascentais as ovelhas. 4 A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza. 5 Assim, se espalharam, por não haver pastor, e se tornaram pasto para todas as feras do campo. 6 As minhas ovelhas andam desgarradas por todos os montes e por todo elevado outeiro; as minhas ovelhas andam espalhadas por toda a terra, sem haver quem as procure ou quem as busque. 7 Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do SENHOR: 8 Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, visto que as minhas ovelhas foram entregues à rapina e se tornaram pasto para todas as feras do campo, por não haver pastor, e que os meus pastores não procuram as minhas ovelhas, pois se apascentam a si mesmos e não apascentam as minhas ovelhas, - 9 portanto, ó pastores, ouvi a palavra do SENHOR: 10 Assim diz o SENHOR Deus: Eis que eu estou contra os pastores e deles demandarei as minhas ovelhas; porei termo no seu pastoreio, e não se apascentarão mais a si mesmos; livrarei as minhas ovelhas da sua boca, para que já não lhes sirvam de pasto.” Ez 34:1-10

3) São nuvens sem água, impelidas pelo vento…” Os falsos mestres dos dias de Judas eram também semelhantes a nuvens enganosas que prometiam a tão necessitada chuva, mas que realmente eram sem água e levadas pelos ventos. Tais homens eram levados pelos ventos do erro e, em virtude de serem semelhantes a “nuvens sem água”, eram vazios e inaproveitáveis. A palavra de Deus é comparada algumas vezes com a chuva, e nuvens são os instrumentos através dos quais a chuva é destilada sobre a Terra. Nos países áridos o surgimento de uma nuvem traz esperança, pois com ela vem a expectativa de muita chuva para regar a terra ressequida. Mas, quando surgem os ventos súbitos as nuvens se dispersam, e junto com elas, a esperança dos lavradores. Porque estes falsos mestres foram comparados a nuvens? Pois eles aparentavam ter a palavra de Deus. Quem os ouvia tinha a impressão de que conheciam a sã doutrina. Mas infelizmente, só possuiam aparência. Eram nuvens sem água, não tinham contéudo, eram vazios. Os que deles se aproximavam ficavam sempre com a expectativa de receber algo, mas saiam frustrados por nada receberem. Eram impelidos pelos ventos. Não conseguiam se manter firmes nas verdades simples que aprenderam, estavam sempre sendo levados de um lado para outro, movidos por doutrinas estranhas e por suas próprias paixões.

4) “árvores de outono, sem frutos, duas vezes mortas, arrancadas pela raiz.” A chuva temporã (que começava por volta de meados de outubro) era ansiosamente aguardada para aliviar o calor e a sequidão do verão. Ela era necessária antes de se poder começar a plantar, porque a chuva amolecia o solo e permitia ao lavrador arar a sua terra. Sendo que no contexto, mencionado por Judas, essa árvores no fim do outono não tinham trazido nenhuma alegria, porque uma das características mencionadas acima era que eles se assemelhavam a “nuvens sem água, levadas pelos ventos”, trazendo decepção, tristeza e sofrimento para aqueles que aguardavam coisas melhores. Pelo fato de não ter caído as tão esperadas chuvas de outono, estas árvores eram “infrutíferas”. Isso causava desapontamento aos que tanto esperavam por uma colheita abundante. Da mesma forma, estes falsos mestres não tinham nada a oferecer a igreja. Apesar de toda expectativa de que produziriam frutos por aparentarem ter vida espiritual, eram causa de decepção. Foram comparados às árvores infrutíferas da antiga Palestina, que eram arrancadas pela raiz e destruídas pelo fogo, de modo a fugir do imposto sobre árvores frutíferas. O fim desses falsos mestres era a perdição eterna.

5) “São ondas bravias do mar, espumando seus próprios atos vergonhosos…” , Assim como as ondas turbulentas do mar que revolvem o lodo e as plantas marinhas lançando-as na praia, os falsos mestres estavam sempre revirando toda sujeira interna de seus corações e jogando-as para fora. Jesus nos ensina que “não há nada fora do homem que, nele entrando, possa torná-lo ‘impuro’. Pelo contrário, o que sai do homem é que o torna ‘impuro’. 21 Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, 22 as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. 23 Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’." Da mesma forma, esses falsos mestres podem contaminar os que com eles se relacionam. Judas diz ainda que eles “são aduladores dos outros por motivos interesseiros.” As palavras que eles proferem não tem como objetivo a edificação da igreja, mas a obtenção de seus próprios interesses. São dissimuladores. Suas verdadeiras intenções encontram-se ocultas, não se deixam conhecer.

6) “estrelas errantes, para as quais estão reservadas para sempre as mais densas trevas…” Mais uma vez Judas faz uso de uma figura da natureza, e agora do universo astronômico. A marinha sempre fez uso das estrêlas para se localizar no oceano. Esse recurso de navegação para determinar a posição de uma embarcação no oceano, só era possível graças ao fato das estrêlas estarem sempre em lugares fixos no céu. Se elas não tivessem um lugar fixo, seriam totalmente inúteis para um homem do mar. Os falsos mestres foram comparados a estrêlas errantes, aquelas que não tem um lugar fixo no céu, pois nunca se sabe onde elas estarão. Eles não eram capazes de se manter firmes em sua posição no reino de Deus. Não conseguiam perseverar nas verdades aprendidas. Suas vidas não podiam ser usadas como referência para orientar e abençoar os demais irmãos numa vida espiritual sadia. Eram inconstantes.

CONCLUSÃO:

Como líderes na casa de Deus, devemos considerar o conteúdo desta carta como uma séria advertência da parte do Senhor para nós. Vivemos os dias preditos por Paulo aos prebíteros de Éfeso: “Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. 30 E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles.” Atos 20:29,30 A igreja foi invadida por homens sem escrúpulos, que buscam o reconhecimento e glória desse mundo, e para atingir seus objetivos se utilizam de todos os meios, sem se importar com as consequências sobre a vida daqueles que estão sob seu cuidado. Que constantemente clamemos sobre nós a misericórdia do Deus dos céus. Façamos como Davi: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; 24 vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” Sl 139:23,24 Que o Senhor nos ajude a sermos homens com motivações puras, homens que são exemplos para a igreja não apenas no que falam, mas, principalmente no que fazem.

Que o Senhor nos abençoe!

João F. Bium