A Importância da Auto-Análise

A. W. Tozer


Pouca coisa revela tão bem o medo e a incerteza dos homens quanto o esforço que fazem para ocultar seu verdadeiro "eu" uns dos outros e até mesmo a seus próprios olhos. Quase todos os homens vivem desde a infância até a morte por trás de uma cortina semi-opaca, saindo dela apenas rapidamente quando forçados por algum choque emocional e depois voltando o mais depressa possível ao esconderijo. O resultado desta dissimulação constante é que as pessoas raramente conhecem seus próximos como realmente são e. pior ainda, o disfarce tem tanto êxito que elas nem sequer conhecem a si mesmas.

O autoconhecimento tem tal importância em nossa busca de Deus e de sua justiça, que nos encontramos sob a obrigação de fazer imediatamente aquilo que for necessário para remover o disfarce e permitir que nosso "eu" real seja conhecido. Uma das supremas tragédias em religião é o fato de nos termos em tão alta conta, enquanto a evidência aponta justamente o contrário; e nossa auto-admiração bloqueia eficazmente qualquer esforço possível para descobrir uma cura para a nossa condição. Só o indivíduo que sabe que está doente é que procura o médico.

Por Que Somos Indiferentes Quanto ao Retorno de Cristo

A. W. Tozer


Logo depois do término da primeira guerra mundial, ouvi um grande pregador do sul dizer que temia que o intenso interesse pela profecia generalizada naquela época resultaria na morte da bendita esperança quando os eventos provassem que os entusiásticos intérpretes estavam errados.

O homem era profeta, ou pelo menos um estudioso notavelmente perspicaz da natureza humana, pois aconteceu exatamente e que ele predisse. A esperança da vinda de Cristo está quase morta hoje em dia entre os cristãos bíblicos.

Não significa que tenham abandonado a doutrina do segundo advento. De modo nenhum. Tem havido, como todas as pessoas bem informadas sabem, um ajustamento entre alguns dos pontos doutrinários menores do nosso credo, mas a imensa maioria dos evangélicos firmes continua sustentando a crença em que Jesus Cristo algum dia voltará de fato à terra em pessoa. A vitória final de Cristo é aceita como uma das inabaláveis doutrinas da Escritura Sagrada.

Todavia, o retorno de Cristo como bendita esperança está quase morto entre nós, como já disse. A verdade referente ao segundo advento onde é apresentada hoje, é na maior parte acadêmica ou política. O jubiloso elemento pessoal falta por completo. Onde estão aqueles que "Tanto anseiam pelo sinal ó Cristo, do Teu cumprimento; pelo chamejar desvanecem, dos Teus passos em Teu advento?"

A aspiração por ver a Cristo que queimava o peito daqueles primeiros cristãos parece ter-se queimado toda. Tudo que resta são cinzas. É precisamente o "anseio" e o "desvanecimento" pelo retorno de Cristo que distingue entre a esperança pessoal e a teológica. O mero conhecimento da doutrina correta é pobre substituto de Cristo, e a familiaridade com a escatologia do Novo Testamento nunca tomará o lugar do desejo inflamado de amor de fitar Sua face.

Se o ardoroso anelo desapareceu da esperança do advento hoje, deve haver razão para isto; acho que sei qual é, ou quais são, pois há um bom número delas. Uma é simplesmente que a teologia fundamentalista popular tem dado ênfase à utilidade da cruz, e não à beleza dAquele que nela morreu. A relação do salvo com Cristo é apresentada como contratual, em vez de pessoal. Tem-se acentuado tanto a "obra" de Cristo, que esta eclipsou a pessoa de Cristo. Permitiu-se que a substituição tomasse o lugar da identificação. O que Ele fez por mim parece mais importante do que o que Ele é para mim. Vê-se a redenção como uma transação de negócio direto que "aceitamos"; e à coisa toda fica faltando conteúdo emocional. Temos de amar muito a alguém, para ficarmos despertos esperando a sua vinda, e isso talvez explique a ausência de vigor na esperança do advento entre aqueles que ainda crêem nela.

Outra razão da ausência de real anseio pelo retorno de Cristo é que os cristãos se sentem tão bem neste mundo que têm pouco desejo de deixá-lo. Para os líderes que regulam o passo da religião e determinam o seu conteúdo e a sua qualidade, o cristianismo tornou-se afinal notavelmente lucrativo. As ruas de ouro não exercem atração muito grande sobre aqueles que acham fácil amontoar ouro e prata no serviço do Senhor cá na terra. Todos queremos reservar a esperança do céu como uma espécie de seguro contra o dia da morte, mas enquanto temos saúde e conforto, por que trocar um bem que conhecemos por uma coisa a respeito da qual pouco sabemos? Assim raciocina a mente carnal, e com tal sutileza que dificilmente ficamos cientes disso.

Outra coisa; nestes tempos a religião passou a ser uma brincadeira boa e festiva neste presente mundo, e, por que ter pressa quanto ao céu, seja como for? O cristianismo, contrariamente ao que alguns pensaram, é forma diversa e mais elevada de entretenimento. Cristo padeceu todo o sofrimento. Derramou todas as lágrimas e carregou todas as cruzes; temos apenas que desfrutar os benefícios das suas dores em forma de prazeres religiosos modelados segundo o mundo e levados adiante em nome de Jesus. É o que dizem pessoas que ao mesmo tempo afirmam que crêem na segunda vinda de Cristo.

A história revela que os tempos de sofrimento da igreja têm sido igualmente tempos de alçar os olhos. A tribulação sempre deu sobriedade ao povo de Deus e o encorajou a buscar e a esperar ansiosamente o retorno do seu Salvador. A nossa presente preocupação com este mundo pode ser um aviso de amargos dias por vir. Deus fará com que nos desapeguemos da terra de algum modo - do modo fácil, se possível; do difícil, se necessário.

Sinais do Homem Espiritual

A. W. Tozer

O conceito de espiritualidade varia entre os diversos grupos cristãos. Em alguns círculos, a pessoa que fala incessantemente de religião é julgada como sendo muito espiritual. Outros aceitam a exuberância ruidosa como um sinal de espiritualidade, e em algumas igrejas, o homem que ora em primeiro lugar, por mais tempo e mais alto consegue uma reputação de ser o mais espiritual na assembléia.

Um testemunho vigoroso, orações freqüentes e louvor em voz alta podem entrosar-se perfeitamente com a espiritualidade, mas é importante entendermos que em si mesmos eles não constituem nem provam a presença da mesma.

A verdadeira espiritualidade manifesta-se em certos desejos dominantes. Eles são desejos sempre presentes, fixos, suficientemente poderosos para dominar e controlar a vida da pessoa. Para facilitar, vou mencioná-los, embora não me esforce para decidir sua ordem de importância.

1. Primeiro, o desejo de ser santo em lugar de feliz. A busca da felicidade, tão difundida entre os cristãos que professam uma santidade superior e prova suficiente de que tal santidade não se acha presente. O homem verdadeiramente espiritual sabe que Deus dará abundância de alegria no momento em que possamos recebê-la sem prejudicar nossa alma, mas não exige obtê-la imediatamente. John Wesley falou a respeito de uma das primeiras sociedades metodistas da qual duvidava terem seus membros sido aperfeiçoados em amor, pois iam à igreja para apreciar a religião em lugar de aprender como tornar-se santos.

OBEDIÊNCIA

Andrew Murray

Quando se pretende estudar uma palavra da Bíblia, ou alguma verdade da vida cristã, é de grande auxílio fazer minucioso exame do lugar que elas ocupam nas Escrituras. À medida que virmos onde aparecem, quantas vezes são mencionadas, e em que conexões se encontram, torna-se evidente a importância que têm e como se relacionam com o todo da revelação. Permitam-me tentar, neste primeiro capítulo, preparar o caminho para o estudo do que é a obediência, mostrando-lhes a que partes da Palavra de Deus nos devemos dirigir para descobrir a mente de Deus a esse respeito.

I. CONSIDERE AS ESCRITURAS COMO UM TODO

Começaremos no Paraíso. Em Gênesis 2.16, lemos: "E o Senhor Deus lhe deu esta ordem:...", e mais tarde, em Gênesis 3.11, "Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?" Perceba que a obediência ao mandamento é a única virtude do Paraíso, a única condição da permanência do homem ali, a única coisa que o seu Criador lhe pede. Nada se diz sobre fé, ou humildade, ou amor: a obediência inclui isso tudo. Provém da soberania de Deus o direito e a autoridade de exigir obediência, e fazer dela a coisa que vai DETERMINAR O DESTINO DO HOMEM. Na vida do homem, obedecer é a única coisa essencial.

Volte-se agora do início para o final da Bíblia.

No último capítulo se lê (Ap 22.14): "Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham poder na árvore da vida" Temos o mesmo pensamento nos capítulos 12 e 14, onde lemos sobre os descendentes da mulher (12.17), "que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus"; e da paciência dos santos (14.12), "os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus".

Do início ao fim, da perda do Paraíso até a sua recuperação, permanece imutável a lei - é somente a obediência que permite acesso à árvore da vida e ao favor de Deus. E se você indagar o que é que provocou a mudança entre a desobediência inicial, a qual fechou o acesso à árvore da vida, e a obediência do final que proporcionou o retorno a ela, volte-se para O QUE ACONTECEU NO MEIO DO CAMINHO entre o início e o fim - a cruz de Cristo. Leia Romanos 5.19: "... por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos"; ou Filipenses 2.8,9: "... tornando-se obediente até a morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira..."; ou Hebreus 5.8,9: "... embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem...", e voce perceberá que a redenção de Cristo consiste na restauração da obediência a seu lugar apropriado.

A beleza da Sua salvação consiste nisto, que Ele nos reconduz à vida de obediência, que é a única forma de a criatura dar ao Criador a glória devida a Ele, ou receber a glória da qual o Criador deseja fazer a criatura participante.

Paraíso, Calvário, Céu, todos proclamam a uma só voz: "Filho de Deus! a primeira e a última coisa que teu Deus requer de ti é simples, total, imutável obediência".

Este Mundo: Parque de Diversões ou Campo de Batalha?

A. W. Tozer

parqueAs coisas não são para nós apenas aquilo que são, mas aquilo que julgamos que sejam. O que vale dizer que nossa atitude em relação a elas em análise final, é mais importante do que as coisas em si.

Este é um conhecimento comum, como uma moeda velha, amaciada pelo uso. Todavia, traz sobre si a marca da verdade e não deve ser rejeitado por ser familiar.

Um desses fatos é o mundo em que vivemos. Ele está aqui e tem estado aqui através dos séculos. Esse é um fato estável, praticamente imutável como o passar do tempo, mas quão diferente é a visão do homem moderno daquela de nossos país. Vemos claramente neste ponto como é enorme o poder da interpretação. O mundo para todos nós não é apenas aquilo que é, mas aquilo que cremos que seja. E o sofrimento ou a felicidade depende em grande parte de nossa interpretação.